Educação

Dos livros encontrados no lixo à universidade

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Com duas graduações pela Unilab, Dona Joca, líder quilombola de 69 anos, compartilha seu conhecimento com estudantes e une os saberes da ancestralidade à formação acadêmica

Entre livros descartados que encontrava em Salvador (BA), Joselita Gonçalves, 69 anos, conhecida como Dona Joca, encontrou um caminho para realizar o sonho de continuar estudando e tornar-se uma das primeiras estudantes quilombolas a ingressar na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), em São Francisco do Conde (BA).

Foto: Divulgação/MEC

Com os materiais que encontrava, de preparação para o vestibular, dividia o tempo entre a leitura de conteúdos de português e matemática, fazia anotações em um caderno e preparava-se para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). O objetivo era conquistar uma vaga na universidade pública.

Na Unilab, Dona Joca concluiu o bacharelado interdisciplinar em humanidades em 2018 e formou-se em ciências sociais em 2026. A experiência ampliou sua compreensão sobre a própria história e a segurança para participar de espaços que antes pareciam distantes. “O que eu não tinha, hoje eu tenho: poder me expressar, saber conversar, entrar e sair nos lugares”, afirma.

Para a sobrinha Flávia Lima, o desejo de Dona Joca de estudar sempre esteve ligado à vontade de ajudar outras pessoas. Segundo ela, a tia vê a educação como um instrumento de luta coletiva e acredita que o conhecimento pode abrir caminhos. “Eu acho que ela viu assim ‘ah, eu não tenho dinheiro, mas, se eu tiver o conhecimento, eu consigo’”, relata.

Dona Joca conta que seus pais não sabiam ler nem escrever, mas faziam questão de que os filhos estudassem. Mesmo com as dificuldades financeiras, a educação ocupava um lugar central na rotina da família. “Eu não tinha roupa para vestir, mas o estudo eu tive. Isso era prioridade para a gente, era mais prioridade estudar do que comer”, lembra.

A ancestralidade na universidade – Dona Joca levou para a vida acadêmica experiências que já faziam parte de sua trajetória. Para ela, a formação universitária se soma ao conhecimento construído na família e na comunidade quilombola. Ao falar sobre o que aprendeu, ela se reconhece como uma mulher formada por duas academias: a da ancestralidade e a da universidade.

A professora Elizia Cristina destaca essa presença dos saberes do quilombo no cotidiano acadêmico. “Ela trazia o quilombo para cá. Trazia as plantas, os animais. Ela tem uma sensibilidade incrível que vem justamente desse conhecimento que ela organizou, que confeccionou em sua trajetória”, recorda Elizia.

O encontro com Dona Joca também marcou a experiência da professora. “Dona Joca me faz sentir que foi uma boa escolha”, diz Elizia sobre sua própria decisão de tornar-se professora da Unilab.

Enquanto compartilhava seus conhecimentos, Dona Joca encontrava novas leituras e formas de compreender as relações sociais. Foi nesse ambiente que passou a reconhecer situações que a acompanhavam desde a infância. “Eu nasci me criando no racismo e não sabia o que era o racismo. Passei a conhecer o racismo depois que eu vim para a faculdade”, relata.

O aprendizado teve efeitos fora da sala de aula. Dona Joca conta que passou a sentir-se mais preparada para entrar em órgãos públicos, procurar instituições e conversar com autoridades. A possibilidade de expressar-se e ser ouvida tornou-se uma das mudanças mais importantes proporcionadas pela formação.

“Hoje eu posso ir a qualquer lugar, entrar em um órgão do Estado ou um fórum”, diz. Para ela, o conhecimento adquirido fortalece sua atuação como liderança quilombola.

A experiência universitária também passou a fazer parte das palestras que realiza em escolas. Dona Joca conversa com estudantes do ensino médio e com turmas da educação de jovens e adultos (EJA), inclusive mulheres mais velhas que retomaram os estudos.

Nesses encontros, compartilha o percurso que começou com o incentivo dos pais, atravessou diferentes trabalhos e chegou à universidade. Sua presença oferece aos estudantes uma experiência concreta de continuidade dos estudos, construída em meio a dificuldades que muitos deles também conhecem.

O incentivo alcança a própria família. Dona Joca quer que filhos e netas encontrem em sua trajetória motivos para seguir aprendendo. E faz planos para continuar: deseja cursar mestrado e doutorado.

Entre palestras, viagens e movimentos dos quais participa, ela reconhece o quanto sua vida mudou. A universidade ampliou seus espaços de atuação e se tornou parte de uma história que continua em construção. “Essa universidade é tudo para mim”, resume.

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Fonte: Assessoria de Comunicação Social/ Ministério da Educação – MEC

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